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"O
curador é essencial na EM"
Entrevista
Graça Urbano
Enfermeira da equipa de apoio domiciliário ao
portadores da doença |
O papel do cuidador é “primordial para o bem-estar
do portador de esclerose múltipla (EM), porque sendo uma doença crónica incapacitante não afecta
só o portador como todos os que o rodeiam”, afirma, em entrevista à EM Revista, Graça Urbano,
enfermeira da equipa de apoio domiciliário aos doentes de EM em tratamento com Interferão Beta -
1b. Afirmando que o estado psicológico depende de múltiplos factores, a entrevistada não tem dúvidas em
apontar o melhor conselho para os doentes: “Dentro de certos limites, viverem a sua vida”.
EM Revista- Qual a importância da figura
do cuidador na esclerose múltipla (EM)?
Graça Urbano- É um papel primordial para o bem-estar do portador de EM,porque sendo esta uma doença crónica
incapacitante não afecta só portador como todos os que o rodeiam. Portanto, é
extremamente importante que estas pessoas saibam o que é a doença para,
deste modo, poderem ajudar o doente a viver o melhor possível. O cuidador é, de
facto, essencial, na EM.
EMR- Por parte da comunidade médica e paramédica há a devida sensibilização de
quem rodeia socialmente o portador de EM para essa importância?
GU- Não a suficiente, mas felizmente cada vez mais. Toda a família necessita de
apoio, não apenas o portador de EM. No fundo, o que está a ser feito é procurar que
o cuidador acompanhe o doente, de modo a que fique esclarecido sobre o que se
passa. Por outro lado, têm-se realizado reuniões com cuidadores, de modo a que
eles aproveitem este espaço aberto para colocarem junto dos profissionais de saúde
os seus problemas quotidianos. Um exemplo muito concreto: “O meu filho tem
28 anos e para se levantar é um martírio. Isso é normal?”. O esclarecimento destas
dúvidas é muito importante porque, muitas vezes, pensa-se que é apenas a preguiça
que leva a esse comportamento, quando a fadiga é um dos sintomas da doença. Estas
reuniões são um excelente passo para a devida sensibilização, embora haja ainda
muito a fazer. Penso que se vai conseguir fazer esse trabalho devidamente, sendo
certo que também têm de ser os cuidadores a abordarem o técnico de saúde para
esclarecer dúvidas.
EMR- Qual o estado psicológico dos doentes de EM que acompanha no
domicílio?
GU- O objectivo principal do nosso trabalho é o ensino da técnica de
preparação e auto-administração da injecção, a qual é aprendida fácil e
rapidamente, indo o nosso papel com o passar do tempo de encontro, justamente,
às necessidades psicológicas. E o estado psicológico dos doentes de EM varia muito,
da faixa etária, de há quanto tempo foi feito o diagnóstico, do grau de incapacidade e
do apoio que lhe proporcionam os seus familiares e as pessoas ao seu redor. É
óbvio que um adulto jovem, que acabou de constituir família e tem os seus sonhos, ao
saber que tem a doença quase que há um desmoronar da vida. Mas também há o
oposto: há pessoas que enfrentam melhor o diagnóstico porque passaram-se alguns
anos até lhe ser diagnosticada a doença, acabando por sentir um certo alívio por
saber que os sintomas tinham uma justificação e não eram “paranóia”. Portanto,
a nossa actuação varia muito de pessoa para pessoa, dependendo da atitude e do
estado emocional do indivíduo. Os problemas psicológicos dos portadores de
EM não dependem apenas dos sintomas clínicos, mas também da insegurança do
prognóstico. Pretendemos obter a maior quantidade possível de informações para
lhe oferecer uma ajuda concreta. Ajudar as pessoas a recuperar o controlo das suas
vidas e a sua auto-estima é a melhor terapia.
EMR- Que conselhos dão aos portadores de EM para os ajudar a
viver com a doença?
GU- Para, dentro de certos limites, viverem a sua vida o melhor
possível. Infelizmente não há cura para a EM – até porque não se conhecem as suas causas
exactas –, mas há factores que podem
agravá-la, os quais as pessoas têm de conhecer e saber lidar com eles. Tendo essa
noção, ajudamos as pessoas a mudar o seu estilo de vida e encorajamo-las na busca
de objectivos alternativos aos estabelecidos antes do aparecimento da doença, para
assim perseguirem os seus sonhos. Os sentimentos de ansiedade, de ira e tristeza
são normais nestes casos. A orientação de um psicólogo pode ser muito positiva.
EMR- É que, apesar de tudo, há casos de sucesso.
GU- Com certeza. Sendo certo que é difícil reagir bem ao saber que se tem uma
doença crónica de evolução variável e incerta, muitos portadores com o passar
do tempo aprendem a responder às adversidades para atenuar os seus efeitos,
pondo em curso um processo contínuo de readaptação para responder às novas
exigências e às novas necessidades impostas pela doença. O importante é que
o portador de EM alcance o objectivo de uma convivência com a doença o mais
serena e equilibrada possível.
EMR- Os doentes que têm maiores necessidades de apoio psicológico são os
que não têm um cuidador?
GU- Viver com a EM provoca tensões consideráveis nas relações, É de extrema
importância o apoio e a compreensão da família e das pessoas que o rodeiam. As
reacções dos familiares e amigos são determinantes na adaptação do portador
à doença.
EMR- Como vê o papel das associações no apoio aos doentes de EM?
GU- Sempre que contacto com um portador e um cuidador, é meu princípio
dar a conhecer quer a ANEM (Associação Nacional de Esclerose Múltipla), quer a
SPEM (Sociedade Portuguesa de Esclerose Múltipla), porque as associações
são mais um elemento da equipa multidisciplinar. As associações
proporcionam actividades de modo a que o portador possa sair de casa, conviver e
falar com pessoas que estão nas suas condições. Prestam serviços de apoio
psicossocial, jurídico e visita domiciliária às pessoas com EM e respectivas famílias.
Há que realçar também a importância do boletim informativo por toda a informação
pertinente e actualizada a que os associados têm acesso.
EMR- Como vê o futuro do tratamento da EM em Portugal, defende a criação de
centros de tratamento da doença como complemento ao trabalho dos hospitais?
GU- Defendo a criação de centros de EM com equipas multidisciplinares, que
permitam dar resposta às necessidades dos portadores de EM e seus familiares. O
ideal será a sua existência em vários pontos do País para assim satisfazer um
maior número possível de pessoas.
Por Daniela
Couceiro
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