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ANEM - Associação Nacional de Esclerose Múltipa

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Amor de Perdição

O divórcio ou o mero abandono são uma constante em doenças debilitantes como a esclerose múltipla. O caso que relatamos nestas linhas é um exemplo de como o cônjuge se pode quase tornar num estranho que vive, pelo menos oficialmente, debaixo do mesmo tecto do doente.


Embora um pouco revoltada com a vida, não deixa de ter nos olhos um sorriso “traquina” que recorda a menina que nasceu e cresceu em Felgar, aldeia de Trás-os-Montes, de onde só veio a partir aos 21 anos para trabalhar no Porto. Marina Santos, nome fictício que a “EM Revista” utiliza para manter a sua privacidade, tem 46 anos e é aposentada por invalidez da Polícia de Segurança Pública (PSP) devido à esclerose múltipla (EM), doença que lhe foi diagnosticada há cerca de oito anos e que já a “amarrou” a uma cadeira de rodas.

Como é natural, a notícia da “entrada” da EM na vida de Marina Santos foi um choque. “Como qualquer pessoa, fiquei chocada com o diagnóstico. Nunca tinha ouvido falar na doença e tomei conhecimento desta da pior forma possível”, refere a ex-profissional da PSP, acrescentando que, mesmo hoje, a opinião pública ainda não conhece muito bem a EM. “A minha própria mãe ainda não a pronuncia bem”, afirma, num tom divertido. Na altura em que o diagnóstico foi feito, as duas filhas da entrevistada eram muito pequenas, pelo que também não sabiam o que é a doença, mas cresceram a “conviver” com as suas vontades e caprichos e acabaram por se adaptar. Pena é que no caso de Marina Santos a palavra adaptação seja muitas vezes confundida com uma rendição que, por muito “tentadora” que seja, não deve acontecer nunca: “Rendi-me à EM. No princípio, anda lutava, mas, entretanto, cheguei à conclusão de que não vale a pena tentar”. Muito embora o avanço da doença não lhe imprima um sorriso na cara, nota-se facilmente no discurso da entrevistada que a razão da sua revolta não é, pelo menos de forma directa, a EM.



EM presente, marido ausente

Apesar de Marina Santos não querer revelar qual a razão do seu descontentamento, o “segredo” está à vista e revela-se ao cabo de poucos minutos de conversa: o facto do marido, segundo a nossa fonte, ser ausente. “Depois do ‘balde de água fria’ que foi diagnosticarem-me EM, tive o ‘balde de água fria’ do meu marido me ter, quase, que abandonado”, refere, cabisbaixo a nossa interlocutora. “Antes do diagnóstico ele não estava muito em casa porque tinha dois empregos, mas era um marido e um pai completamente diferente. Para melhor”, acrescenta a nossa fonte.

O afastamento por parte do marido teve, garante Marina Santos, “uma grande influência de terceiros” e deu-se logo após o diagnóstico da doença ter sido feito, altura em que terá começado a “dilatar” os prazos de permanência na sua aldeia natal, também em Trás-os-Montes, por sinal bem próxima de Felgar. “Há alturas em que passa mais tempo lá do que aqui”, afirma a entrevistada, que sublinha que, mais recentemente, o cônjuge “tem passado mais tempo em casa”, mas apenas “porque a filha mais velha estuda em Aveiro desde Outubro”. Nem o facto de a acompanhar às consultas no hospital, faz Marina Santos mudar a sua opinião sobre o marido. “Ir comigo ao hospital não faz dele, por si só, um bom marido. Aliás, quando está em casa, está por estar. Fico a falar com as paredes”, defende.

Esta realidade levou Marina Santos a ficar mais fria e desinteressada pela vida: “Certas coisas tocavam-me mais. Hoje sou uma pessoa muito mais distante. Não sei se foi por me ter faltado apoio conjugal – que não o das minhas duas filhas! – ou por mim, o que interessa é que aconteceu”.

Talvez este distanciamento seja uma estratégia desta doente de EM para sofrer menos. “Já não choro, no princípio custou-me muito, sobretudo por causa das miúdas. Mas agora não”, afirma sorrindo... apesar de tudo.



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