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Artigo de
Opinião
Dois terços das pessoas afectadas pela Esclerose Múltipla são
mulheres
Joaquim Pinheiro, Neurologista |
A doença aparece nas primeiras décadas da vida quando se pensa em constituir família e em deixar descendência.
Neste mês de Março em que comemoramos o Dia Internacional da Mulher parece-me apropriado deixar algumas reflexões sobre a mulher e a esclerose múltipla. Na estrita perspectiva do clínico que diagnostica, acompanha e trata pessoas com esta patologia. E que também, neste contexto, responde a perguntas que no ambiente da consulta encontram respostas. Vou tentar trazer algumas que me parece serem mais frequentes.
Posso tomar a pílula anovulatória? Sim, não há evidência que os estrogénios tenham efeitos indesejáveis na evolução da esclerose múltipla. Mas pode também utilizar outros métodos anticoncepcionais aconselhados pelo seu médico.
A esclerose múltipla afecta a minha fertilidade, ou seja a capacidade de gerar bebés?
Não; esta doença, tanto quanto se sabe, não afecta a fertilidade.
Os cuidados durante a gravidez são diferentes quando se tem esclerose múltipla? Não, deve ser proporcionado acompanhamento igual ao de outras mulheres sem problemas de saúde.
Posso ter filhos? Sim, o risco de surtos até diminui durante a gravidez e aumenta ligeiramente nos meses depois do parto. Ter filhos, nos nossos dias, deve ser uma atitude reflectida e não acontecer por acaso. Devem em todas as circunstâncias, e também na esclerose múltipla, ser ponderadas as expectativas e dificuldades. Sim porque ter filhos é sobretudo criá-los e educá-los para a avida afectiva e de relação e para a autonomia. E nada me diz que uma mãe com esclerose múltipla seja, por esse facto, menos apta a ajudar os filhos a crescer.
A esclerose múltipla aumenta a taxa de aborto espontâneo, malformações no bebé ou a mortalidade infantil? Não.
A doença transmite-se aos filhos? Há uma ligeira tendência para que os filhos de progenitores com esclerose múltipla tenham mais essa doença. Mas esse pequeno aumento é tão pouco relevante que as sociedades científicas não consideram que deva constituir obstáculo à afirmação da fertilidade.
A esclerose múltipla pode afectar o meu casamento? Costumo responder que as pessoas não se unem à saúde nem a determinados aspectos físicos. Unem-se e partilham a vida com pessoas de quem gostam e com quem consideram ter afinidades especiais. Não negando que algumas dificuldades específicas podem existir com a progressão da doença afirmo que elas são ultrapassáveis. O amor existe e cultiva-se e não tem relação directa com o estado de saúde.
É fundamental manter uma atitude positiva, de luta, de interacção. Às dificuldades que a esclerose múltipla vai trazendo importa reagir. É esta perspectiva de “construção apesar das adversidades” tão típica do universo feminino, que saúdo, exalto e cumprimento neste Dia Internacional da Mulher.
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