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ANEM - Associação Nacional de Esclerose Múltipa

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O drama de João Manuel
O jogador do Moreirense terminou carreira porque sofre de esclerose múltipla. Hoje, jogadores de várias equipas defrontam-se em Coimbra num jogo cuja receita reverterá a seu favor

António Moura

Foi num treino, o médico do Moreirense só não sabe precisar se em Outubro ou Novembro. Alberto Oliveira lembra-se, sim, que João Manuel caiu, mas de um modo que surpreendeu todos porque um atleta não cai assim, “desamparado”, como se fosse uma coisa; um atleta sabe proteger-se, utilizando as mãos para não se magoar. Não foi o caso. João Manuel especifica: “Foi uma daquelas quedas normais que nós, futebolistas, sofremos, só que caí sem equilíbrio, sem reflexos, nada”. Depois, outro sintoma estranho: um cansaço invulgar, bem maior do que o habitual. Que seria? Um exame no Hospital dos Covões, em Coimbra, iria dar a resposta: esclerose múltipla. É essa a doença que pôs fim à carreira de João Manuel de uma forma abrupta. “Deus quis assim”, disse ao Público.

Hoje, às 18h30, no Estádio Cidade de Coimbra, será disputado um jogo-homenagem cuja receita reverterá a seu favor. O bilhete custa cinco euros, mas os alunos das escolas têm entrada gratuita. “Vão participar jogadores das 18 equipas da SuperLiga”, adianta o presidente do Sindicato de Jogadores Profissionais de Futebol (SJPF), Joaquim Evangelista. Solidariedade, portanto. João Manuel reconhece: “Agora é que vejo os muitos amigos que tenho. É tanta gente a ligar-me, a interessar-se por mim, a dar-me força...”. José Mourinho, que foi seu treinador na União de Leiria, também lhe deu uma palavra, por telefone, a partir de Londres. “Disse-me que eu era um campeão, que quando viesse cá, a portugal, ia tentar ver-me, que tinha esperança em que vencesse a luta contra esta doença. A solidariedade é uma palavra muito importante, hoje apercebo-me disso”.

Há dias, os amigos fizeram-lhe uma primeira homenagem, num jantar que teve lugar em Tentúgal, Coimbra. Eram uns 400, entre jogadores, treinadores, dirigentes, etc., todos chocados com o sucedido a um dos seus pares – muitos terão recordado que o búlgaro Iordanov também foi vitima de uma esclerose múltipla quando estava no Sporting. Não houve discursos, estiveram presentes vários futebolistas, como Pedro Barbosa, Rui Jorge, Mário Sérgio e Douala – este último jogou com ele na União de Leiria, clube que João Manuel representou durante nove épocas. Estava também todo o plantel do Moreirense, o clube para onde se transferiu esta época, assim como vários jogadores do Boavista, Académica, Sporting, Gil Vicente, Belenenses, Marítimo, Naval e União de Leiria.

Logo, em Coimbra, vai ter a seu lado muitos amigos, a maioria jogadores como ele. Joaquim Evangelista citou Pedro Barbosa, Sá Pinto, Rui Jorge, todos do Sporting, clube que, de acordo com o dirigente sindical, terá uma numerosa representação no jogo pelo SJPF. Baía, Jorge Costa, Costinha, Maniche, Simão, Nuno Gomes e Delfim, que viu a sua carreira ameaçada por uma lesão, também são esperados. Os treinadores serão José Couceiro e o velho “capitão” Mário Wilson, este por sinal um homem com estreitas ligações ao clube mais representativo daquela cidade, a Académica, de que foi um dos jogadores mais emblemáticos. José Mourinho também foi contactado para se associar a esta jornada solidária, mas pediu escusa porque o Chelsea defronta hoje mesmo o Barcelona, para a segunda mão dos oitavos-de-final da Liga dos Campeões. O árbitro será o Lisboeta Duarte Gomes.


“Nunca tive uma lesão grave”

João Manuel deixa atrás de si 21 anos como futebolista profissional em cinco clubes. “Nunca tive uma lesão grave – recorda -, só pequenas coisas, jogava até com febre. Fui sempre uma pessoa com muita saúde, era isso que eu mais desejava aos meus amigos – saúde”. Era um médio laborioso, dedicado, o tipo de jogador que sem ser um fora-se-séeie, muitos treinadores gostam de ter nas suas equipas. Até que um dia encontrou pela frente um adversário inesperado, uma doença para a qual não há ainda remédio e que o brigou a antecipar a sua retirada dos campos de futebol, incapacitando-o até para realizar algumas das tarefas diárias mais simples. “Estava determinado a acabar de jogar este ano e iniciar uma nova carreira, como treinador, era isso que eu tinha pensado”, revela, num tom que não oculta a mágoa por ter saído assim.

A doença de que sofre João Manuel atinge cerca de cinco mil pessoas em Portugal. Algumas levam uma vida quase normal. Nos casos mortais, o doente é vítima de infecções secundárias, por exemplo urinárias, ou de pneumonias. Segundo explica Dr. Ângelo Soares, Director Clínico da Associação Nacional de Esclerose Múltipla (ANEM) e ex Director do Serviço de Neurologia do Instituto Português de Oncologia do Porto, “é uma doença degenerativa do foro neurológico, que aparece normalmente enter os 25 os 35 anos de idade” e que faz mais vítimas no sexo feminino. “Por cada 2,5 a três mulheres doentes há um homem em igual circunstâncias”, especifica.

A esclerose múltipla pode evoluir de três formas: uma chama-se remissão recidiva, manifestando-se por crises periódicas aleatórias, que se acentuam e agravam com o tempo, como, ao que parece, na caso de Iordanov, que, apesar de ter sabido lidar com a doença durante duas épocas, não foi mais o mesmo jogador; outra designa-se primitiva progressiva, em que os sintomas pioram e generalizam-se ao fim de semanas ou de meses; por fim, há a secundaria progressiva, que mais não é do que uma evolução da primeira. “Ainda não há tratamento efectivo para esta doença, apenas mediadores que atrasam a sua evolução”, afirma Ângelo Soares.

in Público, 8 de Março de 2005


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